Muhammad O Mensageiro de Deus!

Que Deus louve sua Menção


Abdurrahman al-Sheha
Tradução: Lic. Muhammad Isa García Revisão: Ana María Gonzalez Litardo (Versão Brazil) Khadija Machado (Versão Portugal) Escritório de difusão do Islã de Rabwah www.islamhouse.com Primeira Edição, 1428/2007. Copyright © 2007 Abdurrahman al-Sheha. Todos os direitos reservados. Este texto pode ser utilizado por qualquer pessoa que cumpra com os seguintes requisitos: 1. O texto deve ser citado em seu contexto, sem acréscimos e sem supressões. 2. Mencionar a fonte da citação e seu autor. Deus é quem concede o êxito. Queremos expressar nosso sincero apreço a todos os que contribuíram para a publicação deste livro. Que Deus os recompense por seu esforço. Se há alguma correção, comentário ou pergunta a ser feita sobre esta publicação, não hesite em comunicar-se conosco: www.islamhouse.com 1428 H [4616] Publicado por: Escritório de difusão do Islã em Rabwah. Tel. +4454900 - 4916065


Índice

1. Introdução

2. Quem é o profeta Muhammad ()?

3. Sua linhagem

4. Nascimento e infância

5. A descrição do profeta

6. Atitudes e características do Profeta ()

7. A ética do Profeta ()

8. Declarações de justiça e equidade

9. As esposas do Profeta ()

10. Provas dos textos bíblicos que confirmam Muhammad () como Profeta

11. Provas do Alcorão

12. Provas da Sunnah

13. Escrituras Sagradas prévias

14. No Evangelho

15. Provas intelectuais que confirmam o Profeta ()

16. O que implica o Testemunho de Fé

17. Conclusão

Todos os louvores são para Deus, o Senhor 1 dos mundos, e que Deus exalte a menção de Seu Profeta, e que proteja a sua casa tornando-a segura de todo mal. Quando se fala do Profeta Muhammad 2 deve ter-se em conta que se está falando do maior indivíduo da historia. E [esta] não é uma frase sem fundamento; quem lê a sua biografia e aprende suas atitudes e ética, e ao mesmo tempo se mantém afastado de todos os preconceitos, seguramente chegará a esta conclusão. Alguns não muçulmanos, que têm um caráter justo, também chegaram a esta conclusão. O Professor Hassan Ali, que Deus tenha piedade dele, disse em sua revista Nur al-Islam, que um colega seu de religião Brâmane 3 disse lhe uma vez: Reconheço e creio que o Mensageiro do Islã é o maior e mais prudente homem de toda a história. O Professor Hassan Ali, que Deus tenha piedade dele, perguntou-lhe: Por que o consideras o maior e mais prudente homem de toda a história? Este lhe respondeu: Nenhum homem possuía as características, as atitudes e a ética que ele tinha em conjunto. Ele era um rei, sob cujo reinado a península estava unificada; mas era humilde. Ele acreditava que o domínio era só de Deus. Chegavam-lhe grandes riquezas, mas vivia em estado de pobreza; o fogo não ardia em sua casa durante muitos dias e ele permanecia com fome. Era um grande líder; guiava uns poucos a lutar contra milhares, e mesmo assim os derrotava de maneira decisiva. Amava os acordos de paz, e os entabulava com firmeza de coração, se bem que tinha a seu lado milhares de bravos e valentes Companheiros. Cada Companheiro era muito valente e enfrentava sozinho milhares de inimigos, mas não se sentia nem um pouco intimidado. Mas o Profeta tinha coração terno e piedoso; não queria derramar uma gota de sangue. Estava profundamente preocupado com os assuntos da Península Arábica, mas não descuidava os assuntos da sua família, do seu lar e dos pobres e necessitados. Mostrava com prazer o Islam àqueles que haviam perdido o rumo. Em geral, era um homem preocupado com a melhoria e o bem estar da humanidade, mas não se interessava em amealhar uma fortuna mundana. Ocupava-se em adorar a Deus e amava fazer coisas que O compraziam. Nunca se vingava por razões pessoais. Rezava inclusive pelo bem estar dos seus inimigos e os advertia do castigo de Deus. Era ascético a respeito dos assuntos mundanos e adorava a Deus toda a noite. Era o soldado bravo e valente que lutava com a espada, e o infalível Profeta o conquistador que conquistava nações e paises. Dormia em uma cama feita de palha e uma almofada feita com grossas fibras. O povo o coroou como Sultão dos árabes, o Rei da Península Árabe, mas sua família levava uma vida simples, mesmo depois de receber grandes fortunas; as riquezas se acumulavam na mesquita. Fátima 4 se queixou, certa vez, pelo árduo trabalho que fazia, pelo pilão e pela jarra de água que costumava carregar e que deixavam marcas em seu corpo. O Mensageiro não lhe deu um serviçal, nem lhe deu um pouco de sua riqueza; apenas lhe ensinou umas palavras e súplicas. Seu Companheiro Ummar 5, veio a sua casa, olhou seu quarto e não viu mais que uma cama de palha onde estava sentado o Profeta, e que havia deixado marcas em seu corpo. Os únicos víveres que havia em sua casa eram meio Saa 6 de cevada em um recipiente, e uma pele para guardar água que pendurava na parede isso era tudo que o Mensageiro de Deus possuía no momento em que metade dos árabes estava sob seu controle. Quando Umar viu isto, não pôde controlar-se e rompeu em pranto. O Mensageiro de Deus disse: Por que choras Umar?. Ele respondeu: Por que não haveria de chorar? Cosroes e César desfrutam deste mundo e o Mensageiro de Deus só possui o que posso ver. Respondeu-lhe: Oh Umar, não te comprazeria saber que isso é o que lhes toca a Cosroes e César neste mundo, e que no Além o prazer será somente para nós? Quando o Profeta examinava suas tropas antes de ocupar Meca, Abu Sufyan (um de seus inimigos) estava parado perto de Abbas, tio do Profeta, e admirava os estandartes do exército muçulmano. Sufyan ainda não era muçulmano. Surpreendeu-se ante o grande número de muçulmanos que avançavam em direção a Meca, como uma torrente de água. Ninguém podia detê-los e nada se interpunha em seu caminho. Abu Sufyan disse então a Abbas: Oh Abbas, teu sobrinho se converteu num grande Rei! Abbas respondeu, dizendo: Não é um rei, mas um profeta e transmite a Mensagem do Islam. Adi at-Tai, que era um paradigma de generosidade, assistiu à Assembléia do Profeta, enquanto ainda era cristão. Quando viu como os Companheiros engrandeciam e respeitavam o Profeta, ficou confuso. Era Profeta ou rei? Perguntou para si mesmo: É um rei ou um Mensageiro dos Mensageiros de Deus? Enquanto procurava uma resposta para essa pergunta, uma mulher pobre veio ao Profeta e lhe disse: Quero te contar um segredo. Ele lhe disse: Em que caminho de Medina queres que nos encontremos? O Profeta () partiu com a mulher e atendeu às suas necessidades. Quando Adi viu a humildade do Profeta, deu-se conta da verdade; desfez-se das cruzes que levava consigo e se converteu em muçulmano. Mencionaremos algumas frases dos orientalistas a respeito de Muhammad, que Deus exalte sua menção. Como muçulmanos, cremos no Profeta () e na sua Mensagem, mas mencionamos estas frases pelas seguintes razões:

a. Para que sirvam de lembrança e advertência aos supostos muçulmanos que abandonaram seu Profeta, para que se apressem e regressem à sua religião 7.

b. Para que os que não são muçulmanos saibam quem é o Profeta a partir das palavras de seu próprio povo e possam assim ser guiados ao Islam.

Peço-lhes que não sejam preconceituosos na hora de buscar a verdade, ou lendo algum outro material islâmico. Peço a Deus que os faça abrir seus corações para que aceitem a verdade, que lhes mostre o caminho correto e os inspire a segui-lo.

1 A palavra utilizada no Sagrado Alcorão é Rabb. Não há nenhuma equivalente, apropriada para Rabb no idioma português, já que este vocábulo inclui os seguintes significados: o Criador, o Desenhista, o Provedor, de Quem todas as criaturas dependem para sobreviver e o Que dá a vida e a morte. 2 Este termo árabe significa, queira Deus honrá-lo e protegê-lo de todo mal. 3Brahmán: membro da mais alta das quatro castas hindus: a casta sacerdotal. 4 Fátima era uma das filhas do Profeta. 5 Um dos companheiros próximos do Profeta, e o segundo Califa depois de sua morte. 6 Saa’: É uma medida de capacidade equivalente a quatro palmos. 7 A palavra traduzida como religião é ’Din’ que em árabe normalmente se refere a um estilo de vida que é privado e público. É um termo que significa: atos de culto, vida cotidiana, prática e política.

Muhammad, O mensageiro de Deus ()
Abdurrahman b. Abdul-Kareem al-Sheha
Riyadh, 11535
P.O. Box 59565
Email: alsheha@yahoo.com
http://www.islamland.org

Quem é o Profeta Muhammad()?
Sua linhagem:

Ele é Abul-Qasim (pai de Al-Qasim) Muhammad, filho de Abdullah, filho de Abdul-Mutalib. Sua linhagem remonta à tribo de Adnan, filho de Ismael [o Profeta de Deus, filho de Abraão] que Deus exalte sua menção. Sua mãe foi Aminah, filha de Wahb.
O Profeta () disse:
Certamente Deus escolheu a tribo de Kinanah entre todas as tribos dos filhos de Ismael; Ele escolheu os Quraish entre todas as tribos de Kinanah; Ele escolheu Banu Hashim entre todas as outras famílias dos Quraish; e me escolheu que sou de Banu Hashim. (Muslim, 2276)

Assim, o Profeta () tem a linhagem mais nobre deste mundo. Seus inimigos assim o afirmavam; Abu Sufyan, que era arqui-inimigo do Islam, antes de converter-se em muçulmano, afirmou-o frente a Heraclio 8.

Abdullah b. Abbas, que Deus seja complacente com ele, narrou que o Mensageiro de Deus () escreveu a César e o convidou a entrar no Islam. Escreveu-lhe uma carta que foi entregue ao Governador de Busra, que por sua vez a reenviou a César.

César, em agradecimento a Deus, foi caminhando de Hims a Ilya (Jerusalém), quando Deus lhe outorgou a vitória sobre as forças persas. Então, quando chegou a carta do Mensageiro de Deus, disse depois de lê-la : Busquem qualquer pessoa do seu povo (árabes da tribo Quraish), para perguntar-lhe sobre o Mensageiro de Deus!

8 Imperador do Império bizantino (610-641) que conquistou a Síria, Palestina e Egito à Pérsia (613-628).

Nesse momento, Abu Sufyan bin Harb se encontrava em Sham 9 com uns homens de Quraish que tinham vindo (a Sham) como mercadores, durante a trégua que haviam concluído, entre o Mensageiro de Deus e os incrédulos de Quraish. Abu Sufyan disse: O mensageiro de César nos encontrou em algum lugar de Sham e nos levou, a mim e aos meus companheiros a Ilya, ante a presença de César e o encontramos sentado em seu trono real, com sua coroa e rodeado de altos dignitários bizantinos. Ele disse ao seu tradutor: Pergunta-lhes quem de entre eles tem algum parentesco com o homem que disse ser profeta. Abu Sufyan acrescentou:
Respondi-lhe: Sou seu parente mais próximo. Perguntou-me: Qual é teu parentesco com ele? Respondi-lhe: É meu primo, e não havia ninguém na caravana de Bani Abd Manaf, exceto eu.César disse: Que se aproxime. E logo ordenou que meus companheiros permanecessem atrás de mim e disse ao tradutor: Diga a seus companheiros que vou perguntar a este homem sobre o homem que diz ser profeta. Se ele mentir, devem contradizê-lo imediatamente. Abu Sufyan acrescentou:
Por Deus! Se não fosse uma vergonha que meus companheiros me chamassem de mentiroso, não lhe teria dito a verdade quando me perguntou. Mas me pareceu uma desonra que meus companheiros me chamassem de mentiroso, por isso disse a verdade. Logo disse ao seu tradutor: Pergunta-lhe a que tipo de família pertence. Respondi-lhe: Pertence a uma família nobre. Logo disse: Alguma vez outra pessoa afirmou ser o mesmo que ele disse ser? Respondi-lhe: Não. Logo disse: Alguma vez o acusaram de mentir? Respondi-lhe: Não. Disse então: Algum dos seus ancestrais foi rei? Minha resposta foi: Não. Logo acrescentou : Seguem-no os ricos ou os pobres? Respondi-lhe : Os pobres o seguem. Disse me logo: Seguem-no mais ou menos pessoas, cada dia que passa? Respondi-lhe: Seguem-no, cada dia, mais pessoas. Disse-me: Alguns dos que adotam sua religião se desiludem e logo deixam de lado sua religião? Respondi-lhe: Não quebra suas promessas? perguntou-me. Respondi-lhe: Não, mas neste momento estamos em uma trégua com ele e temos medo de que nos traia. Abu Sufyan acrescentou:
Fora sua última oração, nada pude dizer contra ele. Então César perguntou: Alguma vez tiveram uma guerra contra ele? Sim,
respondi-lhe. Disse-me: Qual foi o resultado dessas batalhas com ele? Ás vezes ele ganha, às vezes, nós ganhamos, foi minha resposta. Disse então: Que coisas lhes ordena?. Disse-lhe: Mandamos que adoremos somente a Deus, que não adoremos a outros além d Ele, e que deixemos de lado tudo que adoravam nossos ancestrais. Ordena-nos que oremos, que façamos caridade, que mantenhamos a castidade conjugal , que cumpramos nossas promessas e que devolvamos aquilo que nos emprestam. Quando disse isso, César disse ao seu tradutor: Diga-lhe: Perguntei-te sobre sua linhagem e tua resposta foi que pertencia a uma família nobre. De fato, todos os Mensageiros vinham da mais nobre das linhagens dos seus respectivos povos. Logo, te perguntei se alguém mais dizia ser o que ele diz ser, e tua resposta foi negativa. Se a resposta tivesse sido afirmativa, pensaria que este homem diz ser algo que já foi dito antes dele. Quando te perguntei se alguma vez o acusaram de mentir, tua resposta foi negativa; eu considero sensato que uma pessoa que não mente para as pessoas também não minta sobre Deus. Logo te perguntei se algum dos seus ancestrais foi rei. Tua resposta foi negativa, e se houvesse sido afirmativa teria pensado que este homem pretendia recuperar seu passado real. Quando te perguntei se o seguem os ricos ou os pobres, me respondeste que são os pobres que os seguem.

De fato, eles são os seguidores dos Mensageiros. Logo te perguntei se seus seguidores são mais ou menos a cada dia. Respondeste que cada vez são mais. De fato, isso é resultado da verdadeira fé, até que esteja completa (em todos os sentidos). Perguntei te se havia alguém, que logo após adotar sua religião, desiludiu-se e descartou sua religião; tua resposta foi negativa. De fato, é um sinal da verdadeira fé, pois quando seu prazer entra e se mistura completamente nos corações, ninguém se desilude. Perguntei-te se alguma vez tinha quebrado uma promessa. Tua resposta foi negativa. E assim são os Mensageiros; nunca rompem suas promessas. Quando te perguntei se alguma vez combateram, me respondeste que às vezes o fizeram, e que em algumas ocasiões ele saía vitorioso, em outras vezes, vocês. De fato, assim são os Mensageiros; são postos à prova e a vitória final sempre é deles. Logo te perguntei que coisas lhes ordenava. Respondeste-me que lhes ordenava adorar somente a Deus e não adorar a outros, junto com Ele ; deixar de lado o que seus ancestrais costumavam adorar, suplicar, dizer a verdade, ser casto, cumprir as promessas, e devolver aquilo que lhes é confiado. Essas são em realidade as qualidades de um profeta que eu sabia que viria (segundo as Escrituras anteriores), mas não imaginava que seria um de vocês. Se o que dizes é verdade, logo ele ocupará o solo que está sob meus pés, e se pudesse iria até ele imediatamente para conhecê-lo e lavaria seus pés. Abu Sufyan acrescentou:
César pediu a carta do Mensageiro, que foi lida. A mesma dizia: "Em nome de Deus, o Misericordioso, o Compassivo. De Muhammad, o servo de Deus e Seu Mensageiro a Heraclio, Soberano dos bizantinos: Paz para quem segue a guia. Convido-te ao Islam; torna-te muçulmano e estarás a salvo e Deus te recompensará duas vezes. Mas se Lhe viras as costas, sobre ti recairá o pecado de teus súditos.

"Gente do Livro! Sejamos unânimes: Que não adoreis senão a Deus e não o associeis a nada nem vos tomeis uns aos outros
por senhores, distantes de Deus; e se derem as costas, dizei: Testemunhai que somos muçulmanos." (Alcorão 3: 64) Abu Sufyan acrescentou:
Quando Heraclio terminou seu discurso, produziu-se um enorme clamor e um grito por parte dos dignitários bizantinos que o rodeavam, e havia tanto ruído que não se entendia o que diziam. Então, ordenaram-nos que saíssemos da corte. Quando saí com meus companheiros e estávamos sozinhos, disse lhes: Certamente, o assunto do Profeta ganhou poder. O Rei dos bizantinos o teme. Abu Sufyan acrescentou:
Por Deus, cada vez estava mais seguro de que sua religião obteria a vitória até que terminei por aceitar o Islã. (Bujari, 2782)

9 Esta é uma região histórica do Médio Oriente que circunda o Mediterrâneo. Inclui os estados modernos da Síria, Líbano, Palestina e Jordânia.


Nascimento e Infância

O Profeta () nasceu no ano 571 (segundo o calendário gregoriano), na tribo de Quraish, [considerada nobre por todos os árabes] em Meca [considerada a capital religiosa da Península Árabe.]

Os árabes realizavam a peregrinação a Meca, e caminhavam ao redor da Kabah construída pelo Profeta Abraão e seu filho o Profeta Ismael, que Deus exalte sua menção. O Profeta () era órfão. Seu pai faleceu antes de ele ter nascido e sua mãe morreu quando tinha seis anos. Seu avô, Abdul-Mutalib cuidou dele e quando morreu, seu tio Abu Talib assumiu essa função. Sua tribo e as outras da época adoravam ídolos de pedra, madeira e inclusive de ouro. Alguns destes ídolos foram colocados em volta da Kabah. As pessoas acreditavam que esses ídolos podiam afastar o mal ou provocar o bem.

O Profeta () foi um homem honesto e confiável. Nunca teve um comportamento traiçoeiro, nem mentia nem enganava; era conhecido entre sua gente como Al-Amin, ou O Confiável. As pessoas lhe confiavam seus objetos de valor quando iam viajar. Também era conhecido como As-Sadiq, ou O Sincero, pois nunca mentia. Tinha bons modos, era bem falante e amava ajudar as pessoas . Sua gente o amava e o reverenciava. Deus, o Altíssimo, disse;

Certamente és de uma natureza e moral grandiosas. [68:4]

Thomas Carlyle disse o seguinte em seu livro ’Heroes, Hero-Worship and the Heroic in History’:
... desde uma tenra idade, se destacou como um homem inteligente. Seus companheiros o chamavam Al Amin, O Fiel. Foi um homem fiel e verdadeiro; sincero em suas ações, em suas palavras, e em seus pensamentos. Sempre havia um significado no que fazia e dizia. Ainda que taciturno ao falar e calado quando não havia nada a dizer, era pertinente, sábio e sincero quando falava e sempre colocava um manto de luz sobre o assunto. E essas são as únicas palavras que de verdade vale a pena pronunciar! Na vida, descobrimos que era considerado um homem sólido, fraternal e genuíno. Personagem sério e sincero, mas ao mesmo tempo simpático, cordial, companheiro e inclusive jocoso apesar de tudo, sempre ria: Há homens cujo riso é falso, como tudo o que sai deles; homens que não podem rir. Ele era um homem espontâneo, apaixonado, mas, ao mesmo tempo, justo e sincero.

O Profeta gostava de se enclausurar na caverna de Hira, antes de se tornar profeta. Ficava ali muitas noites seguidas.
Jamais enganou; não ingeria bebidas embriagantes, nem se inclinava ante um ídolo ou uma estátua; tampouco jurava ante eles nem lhes fazia oferendas. Foi pastor de um rebanho de ovelhas que pertencia ao seu povo. O Profeta disse: Todo Profeta encomendado por Deus foi pastor de um rebanho de ovelhas. Seus companheiros lhe perguntaram: Inclusive tu, Mensageiro de Deus? Ele respondeu: Sim, eu cuidei de um rebanho de ovelhas para o povo de Meca. (Bujari 2143)
Quando o Profeta Muhammad cumpriu quarenta anos, recebeu uma revelação divina; encontrava-se na caverna de Hira. Aishah(esposa do profeta), que Deus esteja comprazido com ela, disse: O que primeiro recebeu o Mensageiro de Deus, enquanto se encontrava na Caverna de Hira em Meca, foram visões boas [sonhos]. Cada vez que tinha um sonho, fazia-se realidade e ficava claro como o alvorecer. Mais tarde, o Mensageiro de Deus começou a amar o estar sozinho, meditando. Passava dias e noites inteiras para cumprir com seu propósito, na caverna, antes de regressar para sua família. Levava uma ração de alimentos para sua estadia. Quando voltava para sua esposa khadijah(foi a primeira esposa do profeta) que Deus esteja comprazido com ela, buscava mais alimentos frescos y regressava à Caverna para continuar meditando.

A verdade chegou-lhe quando se encontrava na Caverna de Hira. O anjo Gabriel se aproximou de Muhammad e ordenou-lhe que lesse. Muhammad respondeu-lhe: Não sei ler!. Gabriel abraçou Muhammad até que este não pôde mais respirar, e o soltou:
Oh Muhammad ! Leia!. Novamente, Muhammad respondeu: Não sei ler!. Gabriel abraçou Muhammad pela segunda
vez. Logo, ordenou-lhe que lesse pela terceira vez, e o abraçou fortemente até que não pôde mais respirar, e o soltou dizendo: Oh, Muhammad! Leia! Em nome do teu Senhor, Quem criou todas as coisas. Criou o homem de um zigoto. Leia! Que teu Senhor é o mais Generoso. [96:1-3]

O Mensageiro de Deus regressou tremendo a sua casa. Entrou e disse a Kadijah: Cobre-me, cobre-me ! Khadijah, que Deus esteja comprazido com ela, cobriu Muhammad até que ele se sentiu melhor. Logo contou a sua esposa o que lhe havia sucedido na Caverna de Hira. Disse: Temi por minha vida. Khadijah, que Deus esteja comprazido com ela, tranqüilizou Muhammad dizendo: Por Deus! Não deves te preocupar! Deus, o Exaltado, nunca te humilharia! És bom com os teus pares. Ajudas aos pobres e necessitados. És generoso e hospitaleiro com os teus hóspedes. Ajudas aqueles que necessitam.

Khadijah, que Deus esteja comprazido com ela, levou seu esposo Muhammad à casa de um primo seu, chamado Waraqah bin Nawfal bin Asad bin Abdul Uzza. Esse homem havia se convertido ao cristianismo durante a era pagã. Era escriba de Escrituras hebraicas. Era um ancião que havia perdido a vista nos últimos anos de sua vida. khadijah, que Deus esteja comprazido com ela, disse a seu primo: Oh primo meu, escuta o que teu sobrinho [quer dizer, Muhammad , que Deus exalte sua menção] está a ponto de contar-te! Waraqah disse: O que viste, querido sobrinho?. O Mensageiro de Deus contou-lhe o sucedido na Caverna de Hira. Ao ouvir o relato, Waraqah disse: Por Deus! É o anjo Gabriel quem apareceu ante o Profeta Moisés, que Deus exalte sua menção. Oxalá pudesse eu estar com vida quando teu povo te tire de Meca. O Mensageiro de Deus perguntou: Vão expulsar-me de Meca?. Waraqah respondeu afirmativamente dizendo: Nunca um homem transmitiu uma Mensagem semelhante à que levas contigo, sem que seu povo haja entabulado guerra contra ele se chego a ser testemunha disso, dar-te-ei meu apoio. Waraqah faleceu pouco tempo depois desse incidente. As revelações também cessaram logo. (Bujari, 3).

O versículo do Alcorão citado no hadiss 12 anterior marca quando começou sua missão profética. Logo Deus, o Exaltado, revelou-lhe: Oh, tu [Muhammad] que te envolves no manto! Levanta-te e adverte [aos homens]. Proclama a grandeza de teu Senhor, purifica tuas vestimentas. [74:1-4]

Este versículo do Alcorão marca o começo de sua missão como Mensageiro. Com a revelação deste capítulo do Alcorão, o Profeta começou abertamente a convocar seu povo ao Islã. Começou com seu próprio povo. Alguns se negaram a escutá-lo porque os convidava para algo que nunca haviam visto antes.

O Islam é uma forma de vida completa, que trata de temas religiosos, políticos, econômicos e sociais. Além disso, a religião do Islã não os convocava apenas para que adorassem somente a Deus e que deixassem de lado todos os ídolos e coisas que adoravam; também proibia coisas que considerava prazerosas, como a usura ou o consumo de bebidas alcoólicas, a fornicação e os jogos de azar. Também convocava as pessoas a serem justas entre si, e a conhecer que não há diferença entre elas salvo através de uma correção na forma de vida. Como podiam os de Quraish [a tribo mais nobre dos árabes] serem tratados de igual maneira que os escravos! Não somente se negaram totalmente a aceitar o Islam, como também culpavam e magoavam o Profeta dizendo que estava louco, que era um feiticeiro e mentiroso. Culpavam-no por coisas que não o haviam culpado antes da chegada ao Islã. Incitavam as massas e os ignorantes a que se pusessem contra ele e também torturaram seus companheiros. Abdullah b. Masud, que Deus esteja comprazido com ele, disse :
Enquanto o Profeta se encontrava de pé orando perto da Kabah, um grupo de Quraish estava sentado, e um deles disse: Vêem esse homem? Quem pode trazer a sujeira e as fezes dos camelos, esperar que ele se incline para jogá-las sobre suas costas? Os piores se ofereceram para fazê-lo e quando o Profeta se prostrou, puseram as fezes sobre suas costas, mas o Profeta continuou prostrado. Riram tanto que quase caíram. Alguém foi buscar Fátima, que Deus esteja comprazido com ela, que era apenas uma jovenzinha, e lhe informaram o que havia acontecido. Ela correu até o Profeta, limpou-lhe a sujeira das espáduas, e logo se voltou e amaldiçoou os da tribo Quraish que se encontravam sentados ali. (Bujari,498)

Munib al-Azdi disse : Vi o Mensageiro de Deus dizer ao povo durante a era pagã: Testemunhem que não existe deus digno de louvor exceto Deus, se querem alcançar êxito. Alguns cuspiram em sua cara, outros lhe atiraram terra no rosto, e outros o insultaram até ao meio-dia. Cada vez que uma menina se aproximava com uma vasilha de água, ele lavava as mãos e o rosto e dizia: Oh filha, não tenhas medo de que teu pai seja humilhado ou atormentado pela pobreza. (Muyam al-Kabir, 805)

Urwah b. az-Zubair disse: Pedi a Abdullah b. Amr al-Aas que me contasse a pior coisa que os pagãos haviam feito ao Profeta e ele me disse:
Uqbah b. Muait se aproximou do Profeta enquanto ele orava perto da Kabah, e lhe retorceu sua túnica em volta do pescoço. Abu Bakr
(O companheiro mais íntimo do Profeta e o primeiro Califa do Islam depois de sua morte) que Deus esteja comprazido com ele, aproximou-se rapidamente, agarrou Uqbah pelo ombro e o afastou dizendo: vais matar um homem só porque proclama a Deus como seu Senhor e tem claros sinais do teu Senhor? (Bujari, 3643)

Estes incidentes não detiveram o Profeta em sua prédica. Convocou ao Islã muitas tribos que vinham a Meca realizar a Peregrinação(a Meca) Alguns eram do povoado de Yazrib, conhecido hoje como Medina, e juraram ser-lhe leais e ajudar-lhe se optasse por ir a Medina. Ele enviou Musab b. Umair, que Deus esteja comprazido com ele, para que lhes mostrasse o Islam. Depois de todas as dificuldades que os muçulmanos tiveram que enfrentar por parte de seu próprio povo, Deus lhes permitiu emigrar de sua cidade para Medina. O povo de Medina os recebeu de uma maneira extraordinária. Medina se converteu na capital do estado islâmico, e o ponto do qual começou a expandir-se a prédica do Islã. O Profeta instalou-se ali e mostrou ao povo a recitação alcorânica e a jurisprudência islâmica. Os habitantes de Medina se comoveram muito com os modos do Profeta. Amavam-no mais que a si mesmos; esmeravam-se por servi-lo e gastavam tudo o que tinham, em sua homenagem. A sociedade era forte, seu povo era rico em termos de Fé e eram muito felizes. O povo se amava e reinava uma verdadeira fraternidade entre as pessoas. Todos eram iguais; ricos, nobres e pobres, brancos e negros, árabes e não árabes todos eram considerados iguais para a religião de Deus, não havia nenhuma distinção entre as pessoas, salvo através da piedade. Assim que a prédica do Profeta se expandira em Medina, os mecanos(povo de Meca) atacaram o Profeta na primeira batalha do Islã, a Batalha de Badr. Esta batalha teve lugar entre dois grupos desiguais em armamento e preparação. Os muçulmanos eram 314, enquanto os pagãos somavam 1000 homens apetrechados. Deus deu a vitória ao Profeta e seus Companheiros. Depois desta batalha aconteceram muitas outras entre os muçulmanos e os pagãos. Depois de oito anos,
o Profeta pôde preparar um exército de 10.000 homens. Empreenderam a marcha para Meca e a conquistaram, derrotando assim seu povo, que o havia perseguido e torturado. Muitos muçulmanos, inclusive, haviam sido obrigados a abandonar suas propriedades e riquezas, e fugir para salvar suas vidas. Derrotou-os de maneira decisiva, e esse ano foi chamado O Ano da Conquista. Deus, o Exaltado, diz no Alcorão:

[Oh, Muhammad! Quando chegarem o socorro de Deus e a vitória [a conquista de Meca] e vires os homens em tropéis na religião de Deus, Glorifica e louva teu Senhor por isso, e pede Seu perdão; é certo que Ele é indulgente. [110:1-3]

Logo convocou o povo de Meca e lhe disse: Que pensam que vou fazer-lhes?. Eles responderam: Só farás algo favorável; és um irmão e um sobrinho bom e generoso! Profeta disse: Ide, sois livres para fazer o que desejardes. (Baihaqi, 18055)

Essa foi uma das tantas razões pelas quais muitos deles aceitaram o Islam. O Profeta regressou logo a Medina. Depois de um tempo, o Profeta realizou a peregrinação e dirigiu-se a Meca com 114.000 seguidores. Esta Peregrinação é conhecida como A Peregrinação de Despedida uma vez que o Profeta nunca realizou outra Peregrinação, e morreu pouco depois de completá-la. Durante sua Peregrinação pronunciou o seguinte discurso:

Oh gente! Escutai minhas palavras, uma vez que não sei se voltarei a encontrar-vos de novo, aqui, depois deste ano. Vossa vida e vossos bens são sagrados, como também são sagrados o dia de hoje, este mês e esta cidade. Todas as práticas pagãs ficam agora sob meus pés. Todo ato de vingança dos dias do paganismo fica abolido. A usura da época do paganismo fica abolida, começando pelo interesse que se deve a Abbas bin Abdul Muttalib (seu tio).
Temam a Deus no trato com vossas mulheres. Vós as assumistes sob a proteção de Deus legalmente, pela palavra de Deus. Elas não devem permitir que ninguém se aproxime de vosso leito nem entrar em vossa casa sem vossa permissão. Tendes o dever de alimentá-las e vesti-las adequadamente.
Deixei-vos o Livro de Deus e meus ensinamentos, e se vos agarrardes a ambos nunca vos desviareis.
Oh gente, não haverá nenhum profeta depois de mim e nenhuma nação depois da vossa. Assim, vos recomendo adorar ao vosso Senhor, rezar as cinco orações, jejuar no mês do Ramadã e dar o Zakat (direito dos pobres) de vossos bens, com agrado.Recomendo lhes fazer a peregrinação à Sagrada Casa de vosso Senhor e obedecer àqueles que estão encarregados de vossos assuntos; se fizerem tudo isto entrarão no Paraíso de vosso Senhor. Se lhes perguntarem sobre mim, que dirão? Responderam: Testemunharemos que transmitiste e nos entregaste a mensagem, e nos aconselhaste. Então levantou seu dedo indicador para o céu enquanto dizia: Deus, seja testemunha.

O Profeta morreu em Medina, em 12 do mês lunar Rabi as-sani, no ano 11 da Hégira. O Profeta foi sepultado também em Medina.

Os muçulmanos ficaram chocados ao tomar conhecimento de sua morte; alguns companheiros não acreditavam no que ouviam. Umar, que Deus esteja comprazido com ele, disse: Quem disser que Muhammad morreu, eu o decapitarei! Abu Bakr, que Deus esteja comprazido com ele , fez um discurso e recitou as palavras de Deus:
Muhammad não é senão um Mensageiro, a quem precederam outros. Se morresse ou se o matassem, voltarias à incredulidade? Mas quem voltar à incredulidade, em nada prejudicará a Deus. Deus retribuirá aos agradecidos. [3:144] Quando Umar, que Deus esteja comprazido com ele, ouviu este versículo, compreendeu que o Profeta havia morrido.

O Profeta tinha 63 anos de idade quando morreu. Permaneceu em Meca durante 40 anos , antes de ser indicado como
profeta. Depois viveu ali outros 13 anos, durante os quais conclamou as pessoas ao monoteísmo. Depois emigrou para Medina, onde viveu dez anos. Ali recebeu revelações constantemente, até que o Alcorão e a religião do Islam ficassem completos.

George Bernard Shaw disse:
Sempre tive um grande apreço pela religião de Muhammad, devido à sua maravilhosa vitalidade. É a única religião que parece ter essa capacidade de assimilar as fases mutantes da existência e que a fazem atrativa para qualquer época e idade eu predisse que a fé de Muhammad seria aceite amanhã e já está sendo aceite na Europa de hoje. Os eclesiásticos medievais, por ignorância ou fanatismo, pintaram o maometismo com as cores mais escuras. De fato, foram treinados para odiar, tanto a Muhammad como à sua religião. Para eles, Muhammad era o anticristo. Eu estudei este homem maravilhoso e em minha opinião, longe de ser chamado o anticristo, deveria ser chamado de o Salvador da humanidade.
(Enciclopédia de Sirah, por Afzalur Rahman)
12 A narração de uma declaração, fato, aprovação tácita ou característica do Profeta.


Descrição do Profeta

O Mensageiro de Deus foi um homem sensacional, respeitado por todos os que o conheciam. Seu rosto brilhava como a lua cheia. Era um homem de estatura mediana, nem muito alto nem muito baixo. Tinha uma cabeça grande e seu cabelo era ondulado. Se o cabelo estivesse comprido, dividia-o, do contrário, seu cabelo não ultrapassava os lóbulos das orelhas em circunstâncias normais. Tinha uma cor rosada e saudável. Sua frente era larga. Suas sobrancelhas eram fartas naturalmente, e não eram unidas. Havia uma veia entre suas sobrancelhas que se inchava quando se aborrecia. Seu nariz era reto e tinha um brilho especial. Tinha uma barba cerrada e uma face suave.
Sua boca era grande. Tinha bigode. Seus dentes eram separados. Seu pescoço era semelhante ao de um boneco e tinha uma cor branca, prateada. Sua compleição era moderada e forte. Seu abdome e seu peito estavam no mesmo nível. Seu peito e seus ombros eram largos.
Suas articulações eram de bom tamanho. Sua pele era branca. Tinha pêlos desde o esterno até o umbigo. Não tinha pêlos no peito, mas seus braços e ombros eram peludos. Seus antebraços eram grandes assim como as palmas de suas mãos. Suas mãos e pés eram curtos e seus dedos tinham uma largura discreta. Seus pés eram planos e suaves; devido à suavidade dos seus pés, não acumulavam água. Caminhava com passos largos e elegantes; levantava os pés em vez de arrastá-los. Cada vez que se virava, fazia-o com o corpo inteiro, [em vez de virar somente a cabeça]. Era sempre recatado no olhar. Olhava mais para o chão do que para o céu. Frequentemente passava os olhos rapidamente sobre as coisas [em vez de olhá-las fixamente] Oferecia suas saudações antes mesmo de ser saudado.
O Profeta
, quase sempre, parecia estar triste e meditava profundamente. Nunca descansava completamente, e nunca falava quando não fosse necessário. Cada vez que falava, começava e terminava suas frases com o nome de Deus. Falava com clareza e com coerência, pronunciando somente frases precisas e corretas. Suas frases eram muito exatas; ninguém podia distorcer suas palavras. Era muito amável e carinhoso. Nunca insultava outras pessoas. Era agradecido por todas as bênçãos que Deus lhe havia outorgado, por menor que parecessem; nunca menosprezava nada. Não criticava a comida.
Nunca se preocupava com assuntos mundanos. Se uma pessoa sofria uma injustiça, aborrecia-se muito. Seu aborrecimento não passava até que se restituísse seu direito a essa pessoa. Não se aborrecia se a vítima da injustiça era ele, nem tampouco buscava vingança. Quando apontava, fazia-o com a mão inteira; quando se surpreendia, virava rapidamente a mão. Quando o Profeta
falava, dava pequenos golpes em sua mão direita com o polegar esquerdo. Quando se aborrecia, virava o rosto, e quando estava satisfeito e feliz, baixava o olhar.
Seu riso, na verdade, era sorriso. Quando sorria, seus dentes pareciam pérolas.
O Profeta
repartia seu tempo em três partes; uma parte para Deus, a outra para sua família e a terceira para si mesmo e sua gente.
A parte dedicada ao seu povo era dedicada a atender às necessidades das pessoas. Mantinha-as ocupadas, ensinando-lhes o que as beneficiaria. Costumava dizer: Aqueles que estejam presentes, transmitam(o que aprenderam) àqueles que estejam ausentes, e informem-me das necessidades dos que não puderam vir. Aquele que informa ao governante sobre os pedidos de uma pessoa, Deus o firmará na ponte no Dia da Ressurreição.
O Profeta
cuidava da sua língua [evitava dizer palavras vãs], dava conselhos sinceros e falava com bondade para assim reunir e unir as pessoas. Respeitava os generosos, amáveis e nobres de cada povo, e lhes recomendava os assuntos de sua gente. Advertia as pessoas dos males e cuidava delas, embora nunca tivesse um gesto agressivo com ninguém. Perguntava-lhes sobre sua situação e lhes ordenava que fizessem o bem e proibissem o mal. Era moderado em todos seus assuntos. Nunca deixava passar a oportunidade de recordar e dar sinceros conselhos a seus companheiros. Estava preparado para toda
situação; mantinha a verdade e não era ocioso. Os que se sentavam ao seu lado eram os melhores do seu povo.
O Mensageiro de Deus
nunca se levantava nem se sentava sem mencionar o nome de Deus. Tinha proibido que lhe destinassem um lugar só para ele. Sentava-se onde encontrasse um lugar vazio. Também ordenava aos demais que fizessem o mesmo ao chegar a uma reunião. Repartia seu tempo de maneira eqüitativa entre os Companheiros que se sentavam junto dele. Quem se sentasse perto do Profeta pensaria que era o mais importante e querido por ele. Se uma pessoa se aproximasse pedindo alguma coisa, não o apressava, mas deixava que terminasse seu pedido e se fosse, quando desejasse. O
Profeta
sempre dava uma resposta a quem lhe pedisse algo; presenteava-lhe palavras agradáveis, ainda que não pudesse atender seu pedido. Tinha um coração e uma mente abertos. Era considerado por todos um pai carinhoso e atento; para ele, todos eram iguais. Suas reuniões eram reuniões de conhecimento, perseverança, paciência, modéstia e confiança. Ninguém levantava a voz na presença do Mensageiro de Deus, que Deus exalte sua menção. Ninguém falava de coisas más na sua presença. Aqueles que assistiam à reunião se tratavam de maneira humilde, respeitavam os mais velhos, eram misericordiosos
com os jovens e respeitavam o diferente.
O mensageiro de Deus
estava sempre alegre. Era extremamente amável e carinhoso. Nunca era rude. Não levantava sua voz em público nem dizia grosserias. Não falava mal de ninguém, nem espalhava boatos. Jamais adulava alguém. Não desiludia ninguém. Evitava três coisas: discutir, falar demasiado e interferir naquilo que não era importante. Também evitava outras três coisas: nunca falava mal de ninguém, nunca burlava ninguém nem falava de suas falhas na frente dos outros; tampouco criticava alguém. Só falava daquelas coisas que merecem ser recompensadas. Quando falava com seus Companheiros, estes olhavam para o chão [em sinal de respeito e atenção] e era como se pássaros tivessem posado em suas cabeças.
Quando o Mensageiro de Deus
acabava de falar, então falavam seus Companheiros. Nunca o contradiziam em sua presença. Quando falava um dos seus Companheiros, os outros escutavam atentamente até que tivesse completado o que pretendia dizer.
O Mensageiro de Deus
demonstrava uma extrema paciência quando escutava um estrangeiro com um acento ou dialeto difícil de entender. Não lhe fazia nenhuma pergunta até que tivesse completado o que queria dizer. De fato, o Mensageiro de Deus ordenava a seus Companheiros que assistissem a pessoa que buscasse sua ajuda.
Nunca interrompia a quem falava, até que a pessoa tivesse terminado sua idéia, se detivesse ou se levantasse para ir-se. (Baihaqi).