Abu al Dardá
“Abu al Dardá usava ambas as mãos e toda sua força para empurrar o mundo material para longe de si”
Abdur Rahman b. Awf.

Uwaymir b. Málik acordou cedo e dirigiu-se ao local mais proeminente da sua casa, onde mantinha o seu ídolo. Uwaymir, que tinha o nome patronímico de Abu al Dardá, saudou o ídolo, e o esfregou com o mais caro perfume que sua loja possuía. Depois enrolou-o com um manto de cara seda que havia sido dado como presente por uma mercador que voltava do Yêmen.

Quando o sol saiu, Abu al Dardá foi para fora de sua casa e se dirigiu para a sua loja. Constatou que as ruas de Yaçrib estava cheias dos seguidores de Muhammad que estavam voltando da batalha de Badr. Com eles estavam os cativos de guerra, os pagãos do coraix. Primeiramente Abu al Dardá procurou evitar encontrá-los, mas, repentinamente, voltou-se, e perguntou para um dos muçulmanos se o Abdullah b. Rawwhah havia voltado a salvo com eles da batalha.

O jovem, que era da tribo dos Khazrij, como o era o Abu al Dardá, afirmou-lhe:

“Ele lutou valentemente, e voltou a salvo, e carregado de despojos.”

O jovem não se surpreendeu com o fato de que Abu al Dardá perguntasse sobre o Abdullah b. Rawahah, pois todos sabiam que os dois eram como irmãos um para o outro. Na hora da Al Jahiliya (idolatria), os dois deveras juraram irmandade. Quando o Islam chegou a Yaçrib, Abdullah b. Rawaha abraçou o Islam, ao passo que o Abu al Dardá se afastou dele.

A despeito disso, os dois permaneciam ligados um com o outro. Abdullah b. Rawaha visitava constantemente o Abu al Dardá, e o convidava a aceitar a fé do Islam. Aquele fazia tudo o que podia para tornar a idéia plausível a este, pois sentia pena por cada dia em que Abu al Dardá desperdiçava sua vida como pagão.

Abu al Dardá continuou a andar, até que chegou à sua loja. Sentando-se em sua cadeira, passou a conduzir seus negócios, vendendo, comprando e dirigindo seus empregados no sentido de comprirem suas ordens. Ele não tinha como saber o que se passava em sua casa.

Abdullah b. Rawaha pôs-se a dirigir-se para a casa de Abu al Dardá, pois havia tomado uma séria decisão. Encontrou o portão aberto, e viu que a Umm al Dardá estava sentada no quintal. Ele a saudou:

“Que a paz esteja contigo, ó serva de Allah.”

“Que a paz esteja contigo, ó irmão de Abu al Dardá”, ela respondeu

“Onde está o Abu al Dardá?” perguntou o Abdullah.

“Ele foi à sua loja, e irá voltar logo”, respondeu ela.

“Será que posso entrar?” perguntou ele.

“Tu és bem-vindo”, respondeu ela, e permitiu que ele adentrasse a casa. Ela se retirou para o seu quarto onde, ocupada com seu serviço e suas crianças, não deu atenção a ele.

Abdullah b. Rawaha entrou no quarto onde Abu al Dardá conservava seu ídolo, e retirou um afiado enxó que trazia escondido sob seu manto. Voltando sua atenção para o ídolo, ele se pôs a talhá-lo com o enxó, dizendo repetidamente:

“A cultuação de qualquer coisa que não seja Allah é falsidade!”

Quando acabou de cortar o ídolo, ele saiu da casa.

A Umm al Dardá, sem saber o que tinha acontecido, foi ao quarto onde o ídolo havia estado. Para seu horror, notou que nada havia sido deixado dele, a não ser pedacinhos de madeira espelhados pelo chão. Batendo em suas próprias faces, ela exclamou:

“Tu me arruinaste, ó Ibn Rawaha, tu me arruinaste!”

Quando o Abu al Dardá voltou para casa, um pouco depois, encontrou sua esposa sentada perto da porta do quarto onde o ídolo havia estado. Ela estava a soluçar, e ele pôde notar que ela estava também com medo dele.

“Qual o problema?” perguntou ele.

“O teu irmão, Abdullah bin Rawahah veio a nossa casa enquanto tu estavas fora”, respondeu ela, “e olha o que ele fez com o ídolo!”

Quando Abu al Dardá viu que nada restava do ídolo a não ser lascas de madeira, ele explodiu de raiva. Primeiramente ele pensou que deveria vingar-se pelo ídolo. Então o seu senso comum ganhou a parada, e sua zanga foi-se arrefecendo. Por fim, disse:

“Se esse ídolo aí valesse alguma coisa, deveria ter-se defendido!”

Rapidamente ele saiu de casa. Foi para a casa de Abdullah b. Rawaha e, juntos, foram ter com o Mensageiro de Allah (S), onde Abu al Dardá declarou a sua aceitação do Islam. Ele foi a última pessoa da sua vizinhança a permanecer pagã por tanto tempo.

Desde aquele começo, Abu al Dardá passou a crer em Allah e no Seu Mensageiro (S) tão intensamente, que aquela crença passou a penetrar todas as fibras do seu ser. Sentia muito pelas oportunidades das quais não havia tirado vantagem. Seus amigos que haviam aceitado o Islam antes dele tinham garantido para eles um vasto estoque de bons feitos, haviam aprendido acerca da sua religião, tinham aprendido o Alcorão, e passado suas horas em adoração. Ele sabia que eles poderiam esperar recompensas de Allah por tais comportamentos retos.

Ele resolveu fazer um esforço supremo para compensar o que havia passado por ele, e exercitar-se dia e noite para se igualar aos seus camaradas crentes. Deu-se à adoração como se não tivesse interesse nos assuntos materiais, e passou a buscar o conhecimento, tão afanosamente, como se este fosse água e ele estivesse a morrer de sede. Voltou-se pra o Alcorão, memorizando-lhe as palavras e ponderando sobre os seus significados profundamente.

Quando ele viu que os seus negócios estavam atrapalhando a sua cultuação e retardando os seus estudos, ele o fechou, sem se arrepender disso. Alguém lhe perguntou por que assim havia feito, e ele respondeu:

“Eu era um comerciante antes de conhecer o Mensageiro de Allah (S). Ao conhecer o Islam, eu pensei combinar negócios e cultuação, mas achei-me incapaz de conseguir o que desejara. Então abandonei meus negócios para que pudesse melhor cultuar. Juro por Allah, Que tem minha alma em Suas mãos, que gostaria de ter uma loja na entrada da mesquita. Assim eu poderia ganhar algum dinheiro e, ao mesmo tempo, não perder uma simples oração.

“Não digo que o Todo-Poderoso Allah tenha proibido o comércio, mas quero ser um dos que Ele descreve, no Alcorão, como não sendo distraído quanto à recordação d’Ele pela transação ou venda.”

Abu al Dardá não apenas abandonou o comércio; abandonou o mundo material na sua inteireza. Virou as costas para o seu “glamour” e sua luxúria, contentando-se com alimentos simples, que sobrassem, e com roupas toscas.

Numa noite, quando o tempo estava acremente frio, alguns convidados foram a casa de Abu al Dardá. Ele lhes apresentou comida quente, mas não lhes forneceu cobertores, tanto que um deles disse: “Eu vou falar com ele.”

Um dos seus companheiros tentou evitar que ele fosse, mas ele insistiu, e foi para a porta do quarto do Abu al Dardá. Aí viu-o deitado, tendo sua esposa sentada ao lado dele. Os dois estavam cobertos com um simples lençol que nada podia fazer para os proteger do frio ou do calor. O homem exclamou:

“Vejo que não tendes mais coberta do que nós! Onde estão vossas posses?”

“Nós temos um lar em outro lugar; sempre que recebemos algo, mandamo-lo para lá. Se tivéssemos algo a mais nesta casa, ter-vos-íamos enviado. O caminho que temos de percorrer para chegar a essa casa é cheio de obstáculos, que são fáceis de ser transpostos por alguém que não esteja carregado de posses. Assim sendo, nós temos diminuída a nossa carga, na esperança de completarmos a viagem. Será que isso faz sentido?” perguntou o Abu al Dardá.

“Sim, faz”, respondeu o homem, “e desejo que te seja concedida a recompensa.”

Quando Al Faruk Ômar (que Allah esteja comprazido com ele) era califa do Estado Muçulmano, ele requisitou que Abu al Dardá assumisse a posição de governador de uma das província da Síria. Ele se recusou e, ao insistir Ômar, Abu al Dardá disse:

“Se quiseres, poderei ir à Síria ensinar o Alcorão e a Sunnah às pessoas, e os liderar nas orações.”

Ômar concordou com aquilo, e o Abu al Dardá partiu para Damasco. Aí constatou que os seus habitantes não tinham interesse em mais nada além de riquezas e de um viver luxuoso. Ele ficou horrorizado, e convidou os indivíduos a que comparecessem a uma assembléia na mesquita. Quando estavam reunidos, ele ficou em pé na frente deles e se dirigiu a eles, dizendo:

“Povo de Damasco, vós sois nossos irmãos na religião, sois nossos vizinhos e nossos aliados contra o inimigo. Eu não quero nada de vós, e não vos é exigido que pagueis minhas despesas. Meus conselhos nada vos custa, e não vejo nada que vos empate de responderdes aos meus desvelos por vós, bem como ouvirdes os meus conselhos.

“Dizei-me, por que razão os vossos eruditos estão morrendo de velhice, e nenhum dos vossos jovens tem sido educado para que lhes tome o lugar?

“Por que acontece isso, que quando Allah tem-vos provido, tende-vos ocupado com granjeardes mais riqueza, e virado as costas quanto às vossas obrigações para com Ele?

“Por que guardais coisas que não ireis consumir? Vós construís casas em que não habitais, no mais das vezes! E esperais pelo Paraíso, sendo que nada fazeis para o conseguir!

“Várias nações antes de vós esperaram conseguir o que queriam deste mundo e do outro. Terminaram vendo que tudo o que tinham poupado nada valia; suas esperanças eram vãs e seus lares eram sem vida, feito túmulos.

“O povo de Ad, que viveu antes de vós, enchia a terra de riqueza e de filhos. Agora, será que há alguma coisa restante do povo de Ad que valha dois dirhams?”

Na hora em que o Abu al Dardá tinha terminado, as pessoas, na mesquita, estavam chorando tão alto, que seus soluços podiam ser ouvidos do lado de fora.

Daquele dia em diante, Abu al Dardá passou a freqüentar o ajuntamento das pessoas em Damasco, e a andar pelos mercados, respondendo às perguntas, ensinando o povo, e prevenindo os desavisados. Jamais deixava passar uma oportunidade de beneficiar as pessoas.

Numa ocasião, ele estava seguindo o seu caminho quando encontrou um grupo de pessoas que se aglomeravam em torno de um homem no qual estavam batendo e xingando. Ele lhes perguntou qual era o problema, e lhe disseram que o homem havia cometido algo mui pecaminoso. Abu al Dardá lhes disse:

“Se ele tivesse caído num poço, será que não o teríeis puxado para cima?”

“Claro que teríamos!” disseram.

“Então, não o xingueis, nem batei nele. Outrossim, explicai as coisas para ele, esclarecei-o; e louvai a Allah por ter-vos salvo de incorrerdes no mesmo pecado”, disse o Abu al Dardá.

“Não o odeias?” perguntaram-lhe.

“Apenas odeio o que ele fez; e, caso se arrependa, ele é meu irmão”, disse o Abu al Dardá.

Quando o homem que estava apanhando ouviu aquilo, começou a chorar, e disse que estava arrependido, e que não voltaria a pecar.

Uma ocasião um jovem foi ter com o Abu al Dardá, e disse:

“Aconselha-me, ó companheiro do Profeta (S)!” Abu al Dardá respondeu:

“Filho, sê um freqüentador de escola, ou um estudante, ou um ouvinte, e não sejas um dos deixados de fora, ou ficarás arruinado.

“Filho, faz da mesquita o teu lar, porquanto ouvi o Mensageiro de Allah (S) dizer:

“‘A mesquita é o lar de toda pessoa temente a Deus. Vê, o Todo-Poderoso Allah prometeu confortação e misericórdia para aqueles que fazem da mesquita seus lares, e prometeu que eles atravessarão o caminho para adquirir o Seu aprazimento.’”

Numa ocasião Abu al Dardá encontrou um grupo de jovens sentados à beira da estrada, onde estavam proseando e observando as pessoas passarem. Ele lhes disse:

“Filhos, o lar de um muçulmano é o seu refúgio seguro. Aí ele pode refreiar os seus olhares e os seus desejos. Cuidado com o sentardes na praça do mercado, pois que isso desvia o indivíduo da lembrança de Allah e o leva a conversas vãs.”

Enquanto o Abu al Dardá estava vivendo na Síria, o Muawiya b. Abi Sufyan enviou-lhe uma mensagem pedindo a mão da sua filha, Al Dardá, em casamento para o seu filho, Yazid. Abu al Dardá recusou a proposta, e terminou por consentir que ela se casasse com um jovem muçulmano das pessoas comuns, porque estava contente com as sua maneiras e o seu moral. Quando a notícia se espalhou pela comunidade, as pessoas começaram a falar:

“O Yazid b. Muawiya quis desposar a filha de Abu al Dardá, mas o pai se recusou, e casou-a com um homem das pessoas comuns!” Foi perguntado ao Abu al Dardá porque havia feito aquilo, e ele respondeu:

“Assim o fiz porque queria o melhor para Al Dardá.”

Quando lhe foi perguntado o que ele queria dizer com aquilo, ele respondeu com outra pergunta:

“Pensai: o que iria ser de Al Dardá se ela se achasse com escravos que iriam estar ao seu lado obedecendo a cada ordem sua, vivendo em palácios tão iluminado, que iriam ofuscar-lhe os olhos! Que iria acontecer com a sua fé?”

Enquanto o Abu al Dardá estava ainda na Síria, o Emir dos Crentes, Ômar b. al Khattab, viajou para lá a fim de ver por si mesmo como estavam indo os muçulmanos. Foi ver o Abu al Dardá à noite.

Ele empurrou a porta da frente, e ela se abriu, pois não tinha fechadura. Entrou, e não pôde ver luz em lugar algum. Abu al Dardá o ouviu, foi à porta, saudou-o e lhe ofereceu uma assento. Os dois sentaram-se no escuro a conversar, não podendo ver um ao outro. Omar esticou a mão e sentiu a almofada do Abu al Dardá, e constatou que se tratava de um cobertor de sela. Procurou tatear um colchão, e nada encontrou além de seixos no chão. Sua coberta era nada mais que um tênue lençol que nada fazia para o proteger do frio clima de Damasco. Omar disse:

“Que Allah tenha misericórdia de ti! Será que não te dei dinheiro suficiente para viveres melhor que isto? Será que não te mandei dinheiro?”

“Acaso não te lembras de algo que o Mensageiro de Allah (S) nos disse?” perguntou Abu al Dardá.

“Que foi que ele disse?” perguntou Ômar.

“Ele não disse: ‘Não leveis mais bens materiais do que podeis quando viajardes’. Que temos nós feito após sua morte, ó Ômar?

Ômar chorou, e também chorou o Abu al Dardá. Os dois sentaram-se juntos, lamentando-se conforme pensavam em quão materialista se havia tornado a comunidade muçulmana; e assim permaneceram até ao romper da madrugada.

Abu al Dardá passou o resto da sua vida em em Damasco, pregando aos seus habitantes e ensinando-lhes a sabedoria do Alcorão. Quando ele estava no seu leito de morte, seus companheiros foram visitá-lo, e lhe perguntaram:

“Que coisa te botou doente?”

“Meus pecados”, respondeu ele.

“Há alguma coisa de que gostarias?” perguntaram.

“O perdão do meu Senhor.” Então disse para os que o visitavam:

“Fazei-me dizer: ‘Não há deus a não ser Allah, e Muhammad é Seu Mensageiro (S).’” Continuou a dizer isso, até que morreu.

Após a morte do Abu al Dardá, o Companheiro, Awf b. Málik al Ashfai teve um sonho no qual viu uma vasta campina verde com muitas árvores frondosas. No meio da campina viu uma grande tenda côncavo-convexa feita de couro. Pastando ao redor da tenda estavam ovelhas, as mais lindas do que qualquer uma que jamais vira. Ele perguntou:

“A quem isto pertence?”

“Ao Abdur Rahman b. Awf”, alguém respondeu.

De súbito, o Abdur Rahman b. Awf olhou para fora da tenda, e disse:

“Isto é o que o Todo-Poderoso Allah nos prometeu, no Alcorão. Se fores caminho acima, irás ver e ouvir coisas que jamais imaginaste.”

“E a quem elas pertencem, ó Abu Muhammad?” perguntou Ibn Málik.Ele respondeu:

“O Todo-Poderoso Allah preparou-as para o Abu al Dardá, porque ele usou ambas as mãos e toda sua força para empurrar o mundo material para longe de si.”


Capitulo 24

Suhaib b. Sinan